Dalva Agne Lynch

Perfil

Desde bem jovem, reconheci-me nas linhas de "Tabacaria", de Fernando Pessoa:

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo" (...)
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras."

À medida em que o tempo passou, esse poema continuou a ser um espelho de mim, e reconheci nele a minha face:

"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido"

Hoje, quando sonhos e pesadelos já passaram todos sobre mim, vejo que eles foram apenas estágios, degraus da escada, para que aprendesse o amor maior, ou seja: misericórdia por um mundo sofredor. Hoje escrevo não para expressar angústia, amor, alegria, tristeza, mas para tentar, de alguma forma, mitigar as dores daqueles que, como eu através dos anos que se passaram, sentem-se como as palavras de "Tabacaria":

"Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu."

Escrevo para um mundo em turbilhão. Hoje, ao fim da vida, sei que tudo o que "vivi, estudei, amei e até cri", moldaram-me em um ser melhor, mais capaz de entendimento, e podem agora servir-me de testemunhas para que possa estender a mão a quem sofre e dizer: "Amigo ou amiga, EU ENTENDO O QUE VOCÊ SENTE."

Que meus textos possam, de alguma maneira, trazer-lhe solaço e conforto.

Carinho,
Dalva Agne Lynch

Nota: A palavra "solaço" não existe. Eu inventei, tirando do inglês "solace", que significa bem mais que conforto e carinho. Significa algo como "CHEGAR EM CASA".

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