Sarah D A Lynch

Site oficial da escritora Dalva Agne Lynch

Textos


English original after the Portuguese translation

Nota:
 O texto explicativo do que vem a ser Iom Kippur está na página 
www.dalvalynch.net/visualizar.php?idt=1190821 

Iom Kippur, o Conto

© Dalva Agne Lynch


(Este texto recebeu primeiro lugar em um concurso de contos sobre Iom Kippur no jornal Jewish News em Sydney, Austrália, em 1999, na sua versão original em inglês, tendo sido enviado ao periódico por meu amigo australiano Paul Reti. Note-se que as regras do concurso exigiam textos de no máximo 20 linhas. O meu tinha 13 páginas. E ganhou. Acho que você perceberá, com a leitura, o que provocou tal atitude inusitada por parte dos editores.)


Günter estava quase sempre sozinho na lanchonete da faculdade, sentado num canto perto da janela. Ele abria um livro e ficava lá, tomando suco de laranja de canudinho. Às vezes conversava com amigos. Era uma rotina que nós, garotas, nunca perdíamos, porque Günter era um espetáculo. 


Aos 13 anos, Günter havia feito vestibular de Engenharia na UFRGS, só para se divertir – e passou em primeiro lugar entre quase 2000 alunos. Como a lei brasileira não permitia que ele entrasse para a faculdade (afinal, ele nem terminara o ginásio, muito menos o colegial), apelou direto ao presidente da república, que lhe fez uma exceção. Agora com 16 anos, Günter estava no terceiro ano de Engenharia, e era o chefe do departamento de computação da faculdade. 

Ainda por cima, Günter era lindo. Günter, o Bonitão, a gente o chamava. Pálido, com pele branca como leite, enormes olhos azuis acinzentados e longos cílios, ele parecia estar sempre olhando através das pessoas, como se a gente fosse invisível ou completamente sem importância. Seu cabelo loiro pálido lhe caía até os ombros, rodeando seu rosto em ondas macias, como um halo de fios de luz. Günter era um magnífico espécime. 

“Ele nunca namorou ninguém” – afirmou Marisa, minha amiga da Faculdade de Direito. Ela sempre sabia da vida de todo mundo. 

“É porque não encontrou a garota certa. Aposto que ele é bom de cama.” 

“Esqueça, Sara. Dizem que ele é gay.” 

“Bom – eu gosto dele. Aposto 50 pratas que ele vai pra cama comigo em uma semana.” 

“Nem morta!” – Ela riu, examinando-me da cabeça aos pés. 

Aos 19 anos de idade, eu era magrinha e sem curvas, com um cabelo liso castanho-cor-de-rato caindo pelas costas até a cintura. Meu rosto era coberto de sardas, e, na maioria das vezes, eu usava uns óculos pequeninos, redondos, de armação prateada – muito mais práticos que as lentes de contato. Isto tudo, junto com meus jeans folgados e umas pesadas botas militares, definitivamente não me colocavam na categoria de glamorosa sedutora. 

“Quanto tempo você disse que levava mesmo?” 

“Uma semana.” 

“Fechado.” 

Apertamos as mãos para selar o pacto. Peguei minhas coisas e me dirigi à mesa de Günter. 

“Oi, Günter, meu nome é Sara.” 

“Oi, Sara. Meu nome é Günter. Muito prazer.” Daí ele meteu a cara no livro outra vez. Estendi o braço, peguei o livro e o coloquei em cima da mesa. 

“Günter” – disse eu, puxando uma cadeira e sentando na frente dele – “Eu gosto de você. Penso em cavalgadas em meio às silenciosas árvores da Bavária, quando você passa. Você é belo como Siegfried.” 

Os olhos dele sorriram. Dobrou as mãos sobre a mesa – ele tinha mãos grandes e fortes, com dedos quadrados e unhas bem cuidadas. 

“Você é uma guria estranha, Sara. Já foi à Bavária?” 

“Sim, fui, em meus sonhos da noite, quando Siegfried me pega pela mão e seguimos juntos os sons da floresta e dos rios. Ele é parecido com você, e fazemos amor sob os pinheirais. Você faria amor comigo, Günter? 

Ele estendeu a mão sobre a mesa e pegou a minha. Sua mão era cálida e seca.
“Nunca fiz amor com ninguém, Sara.” 

“Por que? Você é gay?” 

“Quer que lhe mostre?” – Ele sorriu. Tinha perfeitos dentes brancos. 

“Quero.” 

Ele se levantou e me puxou pela mão. Caminhamos para a saída, e fiz o sinal de OK quando passei por Marisa.

O apartamento que Günter dividia com mais dois estudantes era uma bagunça total. Só havia um quarto. Fizemos amor no chão do armário, deitados sobre o casaco dele. Günter estava atrapalhado e ansioso, como o menino que era. E nós nos apaixonamos loucamente desde aquele momento. 


No Brasil dos anos 60-70, computadores eram enormes monstros que tomavam um monte de espaço. Havia muito poucos, e ainda menos técnicos em computação. Mesmo num campo assim tão limitado, Günter era um fenômeno e um gênio. Ele estava sempre dando palestras e seminários para professores, engenheiros e gente assim. Mas à noite, quando estávamos sozinhos, ele era só um garotinho de olhos arregalados que trepava como louco. Nos fins de semana, ele me levava nos seus seminários e palestras, ou eu o levava a concertos e ao teatro. Estávamos juntos há 6 meses quando a carta do pai dele chegou. 

“Meu pai quer conhecer você” – anunciou ele no café da manhã. 

“Por que? O que você contou pra ele?” 

Eu não estava acostumada a que adultos quisessem me conhecer, a não ser na minha capacidade de fashion designer. Eu não gostava nem confiava neles. Minha boca grande e minhas roupas não conformistas invariavelmente resultavam em rechaça e desdém – mas elas eram meu escudo contra um mundo que me havia rejeitado. Elas me davam algo concreto pelo qual ser rejeitada, ao invés de minha hereditariedade e minha solidão. 

“Claro que falei de você pra ele! Eu disse que ia me casar com você.” 

“Ficou biruta, cara. A gente é jovem demais!” 

“E daí? Eu ganho mais do que ele, e você também não ganha lá muito pouco, não.” 

“Mas Günter, eu não quero me casar agora, pelamordedeus!” 

“Bom, a gente não pode continuar a viver deste jeito. Além disto, meu pai parece aprovar. A gente tá viajando sábado logo depois do café.” 

Ainda que estivesse irritada com o machismo dele, eu estava curiosa sobre o negócio todo, então concordei. O almoço de sábado nos encontrou sentados à mesa alegre da família, na pequena cidade de Guaíba, às margens do rio do mesmo nome. 


O pai de Günter era dono de uma casa mortuária. Ele era um cara grande, com um cacoete no olho direito, cabelo loiro grisalho e enormes mãos quadradas. Sua esposa e suas diversas filhas estavam sentadas nos dois lados da mesa, e Günter e eu ficamos na outra ponta. 

“Quer dizer que você é a namorada do meu filho, é? E qual é seu nome, guria?”
 
Eu disse. 

“Como se chama a sua mãe?” 

Eu disse. 

“E seu pai?” 

Também disse. 

Daí ele deu uma palmada na sua perna gorda com aquela enorme mão carnuda, e riu alto. 

“Uma guria alemã! Uma linda guria alemã! (Ele pronunciava “uma linta curia aleman”.) “Estou orgulhoso do meu filho se casar com uma linda guria alemã!” 

Eu me mexi desconfortavelmente na cadeira. Depois do almoço e da lavagem de pratos, o pai se levantou para ir no bar tomar cerveja. 

“Vamos, Günter. Deixe as mulheres jogar conversa fora.” 

“Nem morta” – disse a Günter, entre os dentes. “Você me deixa aqui sozinha e eu juro que mato você.” 

“Olha, pai,” – ele respondeu em voz alta – “acho que a gente vai ficar por aqui numa boa.” 

“Faça o que bem entender, guri, mas não vá se agarrar em saia, tá me ouvindo? A gente precisa se afirmar desde o início, enquanto há esperança. Doma a mulher enquanto é cedo, é o que digo. Hahahahaha!” 

Ele saiu, e nós fomos para o quarto de dormir dos pais de Günter. Ele era o segundo homem da casa: a mãe e as irmãs nem pensariam em questionar qualquer coisa que ele fizesse – mesmo que fosse se trancar no quarto dos pais com uma garota. Eu me sentei na cama enquanto ele tirava a roupa. 

“Günter, há quanto tempo seus pais moram no Brasil?” 

“Eles saíram da Alemanha logo depois da guerra.” 

“Por que? Era tão ruim assim?” 

“Bom… além do fato de que o país estava caindo aos pedaços, meu pai tinha outros problemas. Eles tinham que sair para sobreviver.” 

“E me diz só, por que cargas d´água eles tinham que sair?” 

“Bom, a coisa é a seguinte: meu pai era oficial do exército, sabe, e se não saísse, ia ser morto.” 

“Ele estava na SS, Günter? Ele por acaso é um daqueles caras que estão sendo caçados lá na Argentina agora mesmo?” 

“Bom... É, mas olhe, não vá sair por aí falando sobre isso! Ele precisou mudar de nome e tudo, e todo mundo pensa que ele era um operário por lá.” 

“E ele queria saber o nome da minha mãe e do meu pai?!” 

“Ele só queria se certificar que você é ariana, que droga! E daí?” 

“E daí? Günter, a gente não vive na Alemanha, meu. Isto aqui é o Brasil dos anos 70! Não me venha com essa porcaria de ‘pureza racial’ a esta altura dos acontecimentos!” 

“Sara, não interessa onde a gente está. Ainda somos a classe dominante,viu? Você mesma disse, esqueceu? Sobre Siegfried e os filhos dos deuses?” 

Ele estava parado no meio do quarto, com as mãos na cintura, sem camisa. Ao levantar o queixo, o sol brilhou em seu lindo cabelo, descendo pelos seus ombros largos, cintilando nos seus lindos olhos cinzentos, tão orgulhosos. Um filho dos deuses! E de repente eu fiquei com medo – e com raiva, porque estava com medo. Outra vez, nunca!” 

“Aquilo era mitologia, cara. Não tem essa de raça dominante. Essa era a porcaria do Hitler.” 

Ele pegou nos meus ombros e me sacudiu. 

“Cale a boca! Você nem sabe do que está falando!” Ele saiu do quarto com raiva. Eu peguei minha mochila e corri. Cheguei na estação de trem sem fôlego e apavorada. Sentei em cima da mochila e esperei pelo trem.

“Por que você fugiu?” Günter me assustou e quase caí. 

“Vá embora, Günter.” 

“Por que? Eu amo você. Escute, esqueça meu pai, tá bom?” – implorou ele, grandes olhos cinzentos cheios de lágrimas. Virei-lhe as costas. Não queria que suas lágrimas me dobrassem. 

“Günter, eu sou judia.” 

“O que?” 

Eu me voltei para encará-lo. Respirei fundo e exalei o ar vagarosamente. 

“Eu disse, eu sou judia.” 

“Mas... mas e o seu nome?” 

“Muitos membros da minha família mudaram de nome, como o seu pai. E muitas mulheres se casaram com goys, não judeus.” 

“Mas e esse seu rosto? Olhe a sua cara! Parece ariana!” 

“Tenho um monte de sangue alemão, Günter.” 

“Então não importa, tá vendo? Ninguém precisa saber. Venha, vamos voltar – por favor!” 

Fiquei parada onde estava. 

“O que você quer dizer com isso, que ninguém precisa saber?” 

“Bom, não precisa contar pra ninguém. A gente continua como antes...” 

“Günter, não tem nada pra esconder, cara. Eu não tenho doença venérea, ou algo assim – eu sou judia.” 

Ele fez uma careta. 

“Para de dizer isso!” 

Voltei as costas e corri. Corri direto para a estrada, com Günter me chamando. Peguei carona com um caminhão e voltei para Porto Alegre. 


Na segunda feira de manhã, encontrei meus amigos na lanchonete da escola. Günter entrou com uma garota alta, e os dois se sentaram na mesa dos amigos dele. Ele me lançou um olhar gelado e meu coração se afundou. Eles ficaram lá, conversando e rindo. Quando passei por eles na saída, ouvi uma voz perguntar:
“E a Sara, Günter?” 

“Ela é sweinerein.” 

Sujeira de porco. Meu sangue ferveu. Alguém mais disse sei lá o que e todos riram. Eu dei meia volta e parei bem na frente da cadeira de Günter. Ele levantou os olhos e olhou através de mim. Dei uma bofetada na cara dele. Uma gota de sangue escorreu do canto de sua boca. Ele se levantou, olhos entrefechados de raiva. 

“Judenswein!” – cuspiu ele entre os dentes. 

Saí de cabeça levantada. 


Porca judia. É, ele tinha toda razão. Porca judia. Mas não porque eu era judia – mas porque havia chafurdado no lodo – com ele. 

Estás vendo, Adonai? Estás aí? Existe alguma saída, Adonai? 

Mas os Céus não me responderam. 


Quando escureceu, fui ao bar dos estudantes para tomar um porre. Uma voz me deu um susto:

“Qual é, guria? Você parece um cadáver.”

Daniel estava no último ano da minha faculdade de Direito, e era o comentarista esportivo de um dos tablóides de Porto Alegre. Ele era alto e magro, com um maço despenteado de cachos ruivos em cima da cabeça. Usava uma barba desgrenhada e óculos na frente de penetrantes olhos escuros.

“Nem pergunte, Danny. Você não vai nem começar a entender”

“Experimente.”

“Esqueça.”

“Tudo bem, pô. Cadê o bonitão?”

“Ele me deu o fora.” 

“Bom, você deve ter merecido, guria. Seu gênio é fogo!” 

“Vá pro inferno, Danny. Tô de porre.”

“É, estou vendo.” Ele se sentou à minha frente, atravessado na cadeira. Atrás dos óculos, seus penetrantes olhos pareciam divertidos. “Vamos lá, guria. Confie em mim.” 

“Foi aquele filho da mãe, Danny. Ele me chamou de porca judia.”
 
“O que?” 

“Ele me chamou de porca judia. Judenswein. Daí eu dei um tapão na cara dele. Ele ficou lá, com a boca sangrando.”

“O filho da mãe!” 

“Foi o que eu disse.”

“E você é?” 

“Sou o que? Uma porca?” 

“Não, shmuck. Judia.”

“É.”

“Mmm… Pois é. Venha cá, guria.”

Ele se levantou, e segui-o pela porta, para a rua escura, nossos passos ressoando alto no silêncio da noite. Ele parou na frente de um edifício caindo aos pedaços, que havia tido dias melhores há muito tempo atrás – há muitos e muitos anos atrás.
 
“Chegamos. Este é meu reino, guria.” 

“O que é aqui, então?” 

“Meu jornal. Trabalhamos à noite, dormimos de dia” 

Entramos. O editor estava sentado em uma escrivaninha, datilografando e aparentemente fumando um cigarro atrás do outro, pela maneira como o cinzeiro estava cheio. 

“Oi, Danny, e aí, cara?” 

“Oi, Seu Jonatan. Esta aqui é uma amiga minha. Ela é fashion designer na Casa das Sedas. Achei que o senhor ia se interessar.”

“Mmmm.” 

“Ela namorava aquele gênio, Günter Müller. Sabe – o guri que entrou na faculdade aos 13 anos há alguns anos atrás.”

“Mmmmm.” 

“Ela terminou com ele hoje. Ele a chamou de Judenswein.”

“O filho da mãe!"
 
“Foi o que eu disse” – murmurei. Ele se voltou em minha direção.
 
“E você fez o que, guria?”
 
“Dei um tapão na cara dele. Ele ficou com a boca sangrando.” 

“Bem feito! Dê as cartas a ela, Danny. Os desenhos precisam ficar prontos na sexta feira.” 

Ele voltou à máquina de escrever. Danny pegou um monte de cartas de dentro de uma gaveta e jogou nos meus braços.
 
“Tchau, Seu Jonatan.”
 
“Tchau, Danny. Prazer em conhecê-la... Mmmm… qual é seu nome mesmo?” 

“Sara.”

“Bom, prazer em conhecê-la, Sara. Na sexta, viu?” 

Caminhamos de volta aos dormitórios.
 
“Mas Danny, qual é essa? “ 

“Você acaba de ser contratada, guria. Coluna feminina, Jornal da Semana. Nossa desenhista e repórter saiu para se casar. Pensei que um pouco de grana ia cair bem. Sem falar no ânimo.”
 
“Pô, obrigada, cara. Mas o sujeito realmente me contratou?”
 
“Claro.”

“Mas ele não sabe nada sobre mim. Ele não sabe se sei escrever, não sabe nem mesmo se eu sei ler! Ele nem sabia meu nome!”

“Ele sabia o suficiente, guria.”

“O que?” 

“Você é Judenswein. Bem vinda a bordo, Sara.”

Ele caminhou em direção ao dormitório masculino com seu passo solto. Eu segurei a pilha de cartas e fiquei ponderando.
 
O que queres comigo, Adonai? 
  
 
Trabalhei no jornal pelo resto da minha estadia em Porto Alegre. Com o tempo, comecei a fazer não apenas a coluna feminina, mas a página toda. Graças ao apoio de Danny, depois de um ano e meio estava assinando artigos, o que me deu direito a um cartão de jornalista. Günter e Siegfried viraram coisas do passado.

Mas era bem difícil ser escritora durante a ditadura militar. Nossos artigos precisavam estar prontos na noite de sexta feira, para passarem pela censura do DOPS. Muitas vezes o material voltava aleijado e irreconhecível, com palavras adicionadas que mudavam o significado do texto. Na maioria das vezes, a gente tinha vergonha de assinar um lixo daqueles. Os reacionários estavam em fúria – mas nada se podia fazer. Prisões e torturas, estupros e ameaças eram as únicas respostas que recebíamos. Um grande número de intelectuais, músicos e cientistas estavam saindo do país, tentando manter a liberdade, a vida e a sanidade. Alguns foram para os States, outros para a Argentina, outros para a Europa. Os poucos de nós que restaram – os muito jovens, como eu, e os que não tinham dinheiro – estavam lutando uma guerra perdida.

No começo de outubro, no meu segundo ano na equipe do jornal, cheguei na redação tarde da noite, e encontrei Danny sentado num canto, bebendo.

“Danny, você tá bêbado.” 

“Me conte outra, irmã. Sabe que dia é hoje?” 

“Cara, não tenho a mínimo idéia. Com tanta prova na faculdade eu misturei tudo o que é data.”

“Hoje é Iom Kippur, Sara. Você está arrependida de seus pecados?”

Sentei-me no chão ao seu lado.
 
“Me passe a garrafa, cara.”
 
Bebemos em silêncio por algum tempo.
 
“Danny, por que não vai pra casa?”
 
“E você?”
 
“Eu não tenho casa, meu.”
 
“Bom. Lá em casa todo mundo está batendo no peito e clamando por salvação... Eis-me aqui, Sara. Eis a minha salvação.” Ele levantou o copo e deu um gole.
 
“Você acredita em D´us, Danny?”
 
“Tá brincando? Ou Ele nos esqueceu, ou está dormindo. Dê uma olhada em nós! É no que dá ser Povo Escolhido.”
 
“E Jesus, Danny?”

“Jesus o que? Paz na terra aos homens de boa vontade? Você vê alguma paz? Eles tratam você com algum tipo de boa vontade?”

Bebemos até cairmos adormecidos no chão de madeira. Acordamos com o som do fax cuspindo notícias.
      
Durante a noite, enquanto dormíamos nosso sono de bêbados, os árabes haviam atacado Israel. O povo, bem no meio dos Feriados Santos, foi pego de surpresa. Era o maior derramamento de sangue dos 20 anos de História que Israel tinha. Eu me senti enojada.

Senhor, será que terias lutado por nós, se tivéssemos prestado atenção? Shemmah Israel...Ouve, Ò Israel. Nós não ouvimos, não é mesmo? Estávamos ocupados demais sentindo pena de nós mesmos... 

Estávamos sentados no chão da sala de redação, com fax espalhado por todo lado. Quadros de horrores. Palavras impensáveis. 

“Eu vou pra lá, Danny.”
 
“O que?”

“Eu vou pra lá, Danny. Para Eretz Israel.”
 
“Isso é meshugas, meu! É loucura!” Ele deu risada. 

Durante os próximos três meses, entretanto, trabalhei feito louca me livrando das minhas poucas posses. No meio do mês de fevereiro, peguei carona com um avião da FAB e fui para o Rio de Janeiro. Minha primeira parada antes da Terra Prometida.

Pelo menos era o que eu pensava.

ENGLISH VERSION

IOM KIPPUR 
© Dalva Agne Lynch

(This text has received an award in Sydney, Australia, and was published in 1997)
 
Gunter was almost always by himself at the school cafeteria, in a corner by the window. He’d open a book, and sip orange juice through a straw. Sometimes he’d also chat with some friends.  It was a daily routine we girls never missed, because Gunter was pretty special.

At 13, Gunter had taken the college tests to enter Engineering School just for the fun of it - and had gotten the first place among almost 2000 students. Unable by law to enroll in college (he was only an eighth grader), he appealed to the Country’s President, who got him in by special decree. 

Now, at 16, Gunter was a third year Engineer student, and the head of the college’s computer department. 

To top it all, Gunter was gorgeous. Gorgeous Gunter, we called him. Very pale, with a milky white complexion, enormous gray-blue eyes and long lashes, he always seemed to look straight through you, as if you were invisible - or utterly unimportant. His ash blond hair fell around his face in soft waves down to his broad shoulders, like a halo of spun light. Gunter was a magnificent specimen. 

“He’s never had a date,” said  Marilyn, my friend from Law School.  She always knew everything about everybody. 

“It’s because he didn’t meet the right kind of girl. I bet he is good in bed.” 

“Forget it, Sarah. They say he is gay.” 

“Well, I like him. 50 bucks I land him in bed in a week.” 

“Not on your life”, she laughed, examining me from head to toe. 

At 21, I was very thin and flat-chested, with my long mousy brown hair falling straight down my back to my waist. My face was full of freckles, and, for most of the time, I wore small round silver-framed eyeglasses - more practical than my hard contact lenses. Together with my loose jeans and heavy army boots, I definitely didn’t make the picture of a glamorous seductress. 

“How long did you say it would take you?” 

“A week.” 

“Done.” 

We shook hands to close the deal.  I picked up my stuff and walked to Gunter’s table. 

“Hi, Gunter, I’m Sarah.” 

“Hi, Sarah. I’m Gunter. Pleased to meet you.” He went back to his book.  I took away his book and set it on the table. 

“Gunter”, I said, pulling a chair, and sitting down in front of him, “I like you. I think about horseback riding among the silent trees of Bavaria when you walk by. You are as beautiful as Siegfried.” 

His eyes were amused. He folded his hands over the table. He had big strong hands, with square fingers and well-kept nails..

“You’re a strange girl, Sarah. Have you ever been to Bavaria?” 

“Yes, I did, in my dreams, at night, when Siegfried takes me by the hand, and we follow the sounds of the forest and the rivers. He looks just like you, and we make love under the pine trees. Would you make love to me, Gunter?”  

He stretched his hand over the table and took mine. His hand was warm and dry. 

“I never made love to anyone, Sarah.” 

“Why? Are you gay?” 

“Want me to show you?” He smiled. He had perfect white teeth. 

“Yes.” 

He got up and pulled me by the hand. We walked towards the door. As I passed by Marilyn, I made the thumbs-up sign. 
         
The apartment Gunter shared with two other students was a mess. There was only one bedroom. We made love in the closet floor, lying on his coat.  Gunter was awkward and eager like the boy he was - and we fell madly in love from that moment on. 
 
In the Brazil of the 70´s, computers were huge monsters that took lots of space. There was very few of them, and even fewer experts. Even in a field as thin as that, Gunter was a phenomenon and a genius. He gave frequent talks and seminars to teachers, engineers and the like. But at night, when we were by ourselves, he was  only a wide-eyed little boy  who made love like a madman.  On the weekends, he’d take me to his seminars and talks, or I’d take him to concerts and plays. We were together for about 6 months. Then his father’s letter came.   
        
“My father wants to meet you”, he announced at breakfast one morning. 

“Why? What did you tell him?” 

 I wasn’t used to having adults wanting to meet me other than in my capacity as a fashion designer.  I disliked them and mistrusted them. My loud mouth and my non-conformist clothes invariably brought me reproach and disdain - but they were my shield against a world that had rejected me. At least they gave me something more concrete to be rejected for, other than my birth and my loneliness. 

“Of course I told him about you. I told him I want to marry you.” 

“Gunter, you’re crazy. We’re too young!” 

“So what? I make more money than he does, and you’re not doing so badly either.” 

“But Gunter, I don’t want to be married now, for Pete’s sake!” 
“Well, we can’t live like this anymore.  Besides, my father seems to approve of you. We’re leaving Saturday right after breakfast.” 

Even though annoyed by his chauvinism, I was still curious about the whole thing, so I agreed.  Saturday noon found us sitting around a jolly family table in a small village by the Guaíba River. 

Gunter’s father worked as an undertaker, and was a big, broad guy, with a squint in his right eye, yellow-gray hair and big huge square hands. His wife and several daughters sat on both sides of the table, and I shared the other end with Gunter.

“So you are my boy’s girl, huh? What’s your name, girl?” 

I told him. 

“How about your mother’s name?” 

I told him. 

“And your father’s name?”     
    
I told him. 

He slapped his fat leg with that huge meaty hand, and laughed out loud. 

“A good German girl! A beautiful German girl!” (He said “a sherman kirl, a peautiful sherman kirl”).  “I’m proud of my son for wanting to marry a beautiful German girl!”     

Ï squirmed uneasy in my chair. After the meal and dishwashing, the father got up to go to the beer house. 

“Come on, Gunter. Let the women chat.” 

“Over my dead body,” I told Gunter under my breath. “You leave me here alone and I’ll murder you.” 

“Well, Dad,” he answered out loud, “I guess we’ll just stay here and take it easy.” 

“Suit yourself, boy, but don’t get too tied to a skirt, d’you hear? You have to assert yourself right from the beginning, where there’s still hope. Tame ‘em while they’re still young, I say. Hah, hah, hah!” 

He left, and we went into Gunter’s parent’s bedroom.  Gunter was the second man in the house: His mom and his sisters would never even think about questioning anything he did – even if it was locking himself in his parent’s bedroom with a girl.  I sat on the bed, while Gunter undressed. 

“Gunter, how long have your parents been in Brazil?” 

“They left Germany right after the war. 

“Why did they leave? Was it that bad?” 

“Well… apart from the fact that the country was falling apart, he had other problems too. They had to leave, to survive.” 

“Why did they have to leave?” 

“Well, it’s like this: my father was an officer in the Army, you know, and if he didn’t leave, he’d be killed.” 

“Was he an SS, Gunter? One of those guys they’re chasing in Argentina right now?” 

“Well... Yes, but listen, don’t you tell anyone! He had to change his name and all that, and everybody here thinks he was a factory worker over there.” 

“And he wanted to know my mother’s name, and my father’s name?” 
“He just wanted to be sure you are Aryan, damn it! What’s wrong with that?” 

“What’s wrong with that? Gunter, we’re not in Germany now, man. This is Brazil, 1973! Don’t you give me that “pure race” bullshit at this stage of the game.” 

“Sarah, it doesn’t matter where we are. We are still the ruling team, got it? You said it yourself, remember? About Siegfried and the sons of the gods? 

He was standing in the middle of the room, his hands on his hips, his shirt off. As he lifted up his chin, the sun shone on his gorgeous hair, streaming down to his broad shoulders, shining on his beautiful proud gray eyes. A son of the gods. Suddenly, I was afraid - and mad, because I was afraidNever again! 

“That’s mythology, man. There’s no ruling race.  That was only Hitler’s bullshit.”

He got me by the shoulders and shook me. 

“Shut up! You don’t even know what you’re talking about.” He stormed out of the room. I grabbed my duffel bag and ran. I arrived at the train station out of breath and scared. I sat on my bag and waited for the train to arrive. 
 
“Why did you run away?” Gunter startled me and I almost fell. 
“Go away, Gunter.” 

“Why? I love you. Listen, forget my father, Ok?” he begged, his great big gray eyes brimming with tears.  I turned my back to him. I couldn’t let his tears break me. 

“Gunter, I’m Jewish.” 

“What did you say?” 

I turned around to face him, and took a deep breath, letting it out slowly. 

“I said, I’m Jewish.” 

“But... but how about your name?” 

“Several people in my family changed their names - just like your father. And a lot of the women married goys - non-Jews.” 

“But how about your face? Look at you. You look Aryan.” 

“I have lots of German blood in me, Gunter.” 

“So it doesn’t matter, see? Nobody needs to know. Come on, let’s go back! Please!” 

I stood still. 

“What do you mean, nobody needs to know? “

“Well, you don’t have to tell anyone. We can go on as we were...” 

“Gunter, there’s nothing to hide, man. I don’t have some kind of sinful disease - I’m Jewish.” 

He made a face. 

“Don’t keep saying that!” 

I turned around and ran. I ran straight to the highway, with Gunter calling after me. I hitchhiked a truck, and went back home. 
 
On Monday morning, my friends and I met at the cafeteria. Gunter came in, with a tall girl in tow. They sat at his friends’ table, and he gave me a cold look. My heart sank. They were laughing and talking. As I passed by on my way out, I heard a voice asking, 

“How about Sarah, Gunter?” 

“She’s sweinerein.” 

Pig’s trash. My blood began boiling. Someone else said something I couldn’t hear, and they all laughed. I turned around and stood by Gunter’s chair. He lifted his eyes and looked straight through me. I slapped him hard on the face. A trickle of blood ran down from the corner of his mouth. He stood up, his eyes slanted in anger. 

Judenswein!” he spat between his clenched teeth. I walked out, my head lifted high. 

Jewish pig. He was right. Jewish pig. But not because I was Jewish - but because I had wallowed in the mire - with him. 

Are you looking from up there, Adonai? Are you there, anyway? Is there a way out, Adonai? 

But Heavens were silent. 
 
 
That evening I went to the Student’s Bar to get drunk. A voice startled me. 

“What’s the matter, kid? You look like death itself.” 

Daniel was a Senior at the same Law School I attended, and the Sports commentator of one of our local tabloids. He was tall and thin, with a mop of unruly red curls, a shaggy beard and glasses over his piercing dark eyes. 

“Don’t ask, Dan. You’ll never understand.” 

“Try me.” 

“Forget it.” 

“All right, all right. Where’s the hunk?” 

“He ditched me.” 

“Well, you must have deserved it, kid. You sure have a temper.” 

“Go to hell, Dan. I’m drunk.” 

“I can see that.” He sat astride on the chair in front of me. Behind his glasses, his piercing eyes were amused. “Come on, kid. Trust me.” 
“It’s that son of a bitch, Dan. He called me a Jewish pig.” 

“Say that again?” 

“He called me a Jewish pig. Judenswein. Then I slapped him hard. His mouth was bleeding.” 

“The son of a bitch!” 

“That’s what I said.” 

“And are you?” 

“Am I what? A pig?” 

“No, shmuck. Jewish.” 

“Yes.” 

“So you are. Come on, kid.” 

I followed him out of the bar, into the dark streets, our steps sounding loud in the silence. He stopped in front of a dilapidated building which had seen better days - a long, long time ago. 

“Here we are. This is my kingdom, kid.” 

“What’s in here, anyway?” 

“My paper. We work nights, sleep days.” 

We went in. The paper’s editor-in-chief was sitting at a desk, typing, apparently chain-smocking, by the amount of cigarette buts in the ashtray. 

“Hi, Dan, what’s up?” 

“Hi, Jon. Let me introduce you to a friend of mine. She’s a fashion designer with The House of Silks. I thought you might be interested. 
“Hum.” 

“She used to date that genius guy, Gunter Müller. You know - the kid who got into college at 13 some years ago. 

“Hum.” 

“She broke off with him today. He called her Judenswein.” 

“The son of a bitch!” 

“That’s what I said”, I mumbled. He turned to me. 

“And what did you do, girl?” 

“I slapped him. Hard. His mouth was bleeding.” 

“Good. Give her the letters, Dan. The drawings should be ready by Friday.” 

He turned back to his typewriter. Dan picked up a pile of mail from a tray and dumped it in my arms. 

“Bye, Jon.” 

“Bye, Dan. Nice to meet you... what’s your name again?” 

“Sarah.” 

“Well, nice to meet you, Sarah. By Friday, you hear?” 

We walked back to the dorms. 

“But Dan, what is this all about? “ 

“You just got yourself a job, kid. Women’s column, Sunday paper. Our artist and reporter left to get married. I thought you could use the cash - and the lift.” 

“Thanks, man. But didthe guy really hire me?” 

“Sure.” 

“But he doesn’t know a thing about me. He doesn’t know if I can write, or even if I can read! He didn’t even know my name!” 

“He knew enough, kid.” 

“What?” 

“You are Judenswein. Welcome aboard, Sarah.”

He walked towards the men’s dorm, with his loose stride. I held on to the pile of letters and wondered. 

What do you want with me, Adonai?
 
 
I worked in the paper for the rest of my stay in the South. As time went by, I began doing not only the women’s column on the Sunday paper, but a whole page. With Dan’s encouragement, after one and a half year, I was doing signed articles, which entitled me to a journalist card.  Gunter and Siegfried became past history. 

But it was pretty hard to be a writer during the military dictatorship. Our articles had to be ready by Friday night, so the Censorship Committee, the DOPS, could go over them. The material frequently came back maimed and unrecognizable, with words added to the text to change its meaning. Most of the time you felt ashamed of having your name on such a piece of garbage. The reactionaries were furious - but nothing could be done. The imprisonments and tortures, rapes and threats were the only responses we got. A good number of intellectuals, musicians and scientists were leaving the country, trying to keep their freedom, their lives and their sanity. Some went to the States, some to Argentina, some to Europe. The few of us left - the very young, like me, and the penniless - were fighting a lost war. 

By the beginning of October, on my second year on the staff, I arrived at the paper late one night, and found Dan sitting on a corner, drinking. 

“Dan, you’re drunk.” 

“Tell me another one, sister. Do you know what day is today?” 

“Man, I have no idea. With all those tests at School, I got my dates all mixed up.” 

“Today is Yom Kippur, Sarah. Are you sorry for your sins?” 

I sat by him. 

“Pass me the bottle, man.” 

We drank silently for a while. 

“Dan, aren’t you going home? “ 

“How about you?” 

“I have no home to go to.” 

“Well, at home they are all beating on their chests and crying out for salvation... Here I am, Sarah. Here’s my salvation.” He lifted the cup and drank. 

“Do you believe in God, Dan?” 

“Are you kidding? He either forgot us, or is sleeping. Look at us! So much for the Chosen People.” 

“How about Jesus, Dan?” 

“What about Jesus? Peace on earth, good will to men... Do you see any peace? Did they ever treat you with any kind of good will?” 

We drunk until we fell asleep on the wooden floor. We woke up by the sound of the Fax machine, spitting out the news.  

During the night, while we slept our drunken sleep, the Arabs had bombarded Israel. The people, on their High Holidays, were taken unawares. It was the biggest bloodshed in Israel’s 20 years of history. I felt sick. 

Lord, would You have fought for us, if we had paid attention? Shemmah Israel. Hear, O Israel. We didn’t hear, did we? We were too busy being sorry for ourselves... 

We were sitting on the floor of the newsroom, Faxes strewn all around us. 

Pictures of horror. Words unthinkable. 

“I’m going away, Dan.” 

“What do you mean?” 

“I am going there, Dan. To Eretz Israel.” 

“That’s meshugas, man! It’s crazy!” He laughed out loud. 

For the next three months, however, I worked hard getting rid of the few things I possessed.  By mid February, I hitch-hiked an Army plane, and went to Rio de Janeiro - my first stop before the Promise Land. 

Or so I thought. 


fig: montagem de Odete Ronchi Baltazar, feita especialmente para esta página
 

 
Sarah D A Lynch
Enviado por Sarah D A Lynch em 22/09/2008
Alterado em 24/09/2014

Música: Beneath a Phrygian Sky - LMcKennitt

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