Dalva Agne Lynch

Textos


English text after the one in Portuguese


Carta ao meu filho David - Letter to my son David

fig: David at 19

Escrevi esta carta para meu filho David, nas primeiras horas da madrugada de seu vigésimo aniversário. Dia 14 David comemorou seus 34 anos. Ele está casado com Angie e tem dois adoráveis filhos, Anabelle e Griffen.  FELIZ ANIVERSÁRIO, FILHINHO!



Presente de Aniversário

14 de fevereiro de 1998 - 0:05 hrs

Para meu filho David




O que eu poderia te dar hoje? Só tenho palavras. Tudo o mais pertence a outros, ou poderia me ser tirado a qualquer momento - como antes.

O que eu poderia te oferecer, que fosse maior ou melhor do que já te ofereceram?

Alguém te ofereceu o Céu. É preciso apenas dizer algumas palavras, acreditar de todo coração, e... pronto! O que eu poderia te oferecer além disto?

No meu Céu, entra-se através do desvestir-se de si mesmo, até que reste apenas o cerne - o centro, a imortal neshamah - a alma, que está ligada ao Indivisível - mas que voa a ele apenas depois que nada mais te reste além do amor. Nada de salvação instantânea, é só adicionar água.

No meu Céu, entra-se através do quebrantamento que somente o viver pode dar. Um bebê pode entrar - o único requisito é uma lágrima. Como quando entraste neste mundo, há vinte anos atrás - eras apenas um pedaço de carne, até que choraste e a alma vivente entrou em ti. Precisamos despertar para uma nova realidade para entrar no Céu. Até que tenhamos dado tudo, a ponto de doer, em que Céu poderíamos entrar? Estamos por demais cobertos por camadas de nós mesmos.

Então nada tenho de melhor ou mais belo a te oferecer, como o que já te ofereceram. Nada de cura instantânea, dádivas instantâneas, vingança instantânea, satisfação instantânea de qualquer necessidade. Somente o arrastar-se pelo Caminho em passos cansados, lentos devido ao peso de nossos fardos.

A caminhada é longa e lenta também porque não estamos sós - muitos outros seguem o mesmo Caminho, e alguns são aleijados, outros são cegos, e alguns são apenas crianças. Se vamos rápido demais, talvez percamos um sorriso, um aperto de mão, um beijo - de alguém desagradável, provavelmente sem saúde, seguramente feio - alguém de quem escondemos o rosto, e consideramos esquecidos pela vida - talvez um homem sofrido, que conhece a tristeza.

Então, meu amado, o que te poderia oferecer? Nada de mentes brilhantes, lindos corpos, carnes sensuais, conversas excitantes, idéias interessantes. O que então eu te poderia oferecer?

Nada me sobrou a não ser palavras - e elas nem são minhas. Algumas estão escritas no Livro, algumas em livros escritos com lágrimas. Bom... parece que a única tinta que eu tenho é feita de lágrimas também!

Parece que a lágrima é a tinta que o Infinito usou para escrever Eternidade em nosso coração.

Mas não queres lágrimas, amado. Queres riso e beleza e palavras interessantes que excitam a mente e enchem o coração de esperança.

Mas a única esperança que posso ver é vista através de um Portal de Glória - mas ele é tão estreito que precisas te espremer para passar, e deixar tudo para trás.

A única beleza que conheço é a que brilha depois que uma terrível tempestade sopra, destruindo tudo em seu caminho - deixando apenas um arco-íris e o frescor de um novo começo.

O único riso que conheço é o último minuto de uma longa vigília noturna - como o riso que reaprendi, quando dois jovens vieram a mim, saídos do passado.

Será que algum desses é um bom presente, para contrabalançar uma vida de companheirismo sem responsabilidades com teus amigos? Uma vida sem cuidados, sem laços, sem desamados chatos para aguentar? Sem responsabilidade alguma além de continuar à frente?

Mas... continuar à frente rumo a quê?

Viu só? Nada te posso oferecer. Que tal "Vem e sofra problemas comigo?" ou talvez "Vem e viva rixas, desentendimentos, argumentos e dor?"

Este é o mundo em que vivo - um mundo de rixas, desentendimentos, argumentos e dor. Nada de paz plástica. Apenas o roçar diário de um contra o outro, sem máscaras.

Mas... se quiseres deixar tudo para trás por amor - até mesmo a paz, a beleza e o riso - vem comigo, meu filho. Poderemos reaprender juntos o que nos tiraram - como amar sem restrições e sem preço. Como cuidarmos um do outro a despeito das chateações. Como suportar incomodações, diferenças, picuínhas e tudo o mais que vai junto com o amar-se os seres imperfeitos que somos - sói porque somos uma família. Juntos não por escolha, mas por uma mão maior.

Depois de tudo isto, meu filho, paz, esperança, beleza, riso parecerão impressionantemente sem importância. Estarás tão ocupado aprendendo a amar - suportando os desagradáveis - que tu te esquecerás de ti mesmo, de tuas necessidades e teus desejos.

E, de repente, tu te encontrarás bem onde sempre quiseste estar - talvez não em um determinado lugar, ou junto com determinadas pessoas - mas bem no centro da tua própria verdadeira Vontade.

E não é isto o que querias deste o início? Estar no centro de tua própria verdadeira Vontade, e em uníssono com a Música do Universo?

Então, meu filho, isto é tudo o que tenho para te oferecer no dia de hoje. E esta é minha oração para ti - que aprendas a amar, a dar tua vida não a algum "vizinho" hipotético, mas aos vizinhos reais, aqui e agora - aqueles que tens ao alcance de tua mão para amar. Não "lá", mas aqui mesmo. Não "amanhã", mas agora mesmo.

Nunca fuja do amor, meu filho. Estarás fugindo de teu verdadeiro Eu. Este é o único amor que há.

E depois de tudo isto, terás os desejos do teu coração. Terás, sim!

Eu te amo, meu filho. Tu és um dos mais preciosos, lindos e chatos presentes que já recebi.


English Version

I´ve written this letter to my son David on the first hours of his 20.th birthday. David turned 34 on the 14th of February. He´s married to Angie and has two adorable children: Anabelle and Griffen. HAPPY BIRTHDAY, MY SON!


A Birthday Gift

February 14, 1998 - 0:05 AM

To my son David



What could I possibly give you today? The only thing I have are words. Everything else either belong to someone else, or could be taken away from me at any time - like before.

What can I offer you that could be bigger or better than what was already offered to you?

Someone offered you Heaven . You just have to say a few words, believe it with all your heart, and... bingo! What can I offer you more than that?

My Heaven is entered through the undressing of ourselves from ourselves, until just the core is left - the center, the undying neshamah - soul, which is united with the Undivided One - but which can fly to It only after the only thing left is love. No magic instant salvation, just add water.

My Heaven is entered through the brokeness that only living can impart. A baby can have it - the only requisite is tears. As when you entered this world twenty years ago - you were just a piece of flesh until you cried, and the living soul entered into you. We have to wake up to a new reality to enter Heaven. Until we can give until it hurts, what Heaven could we enter? We are too covered with layers of ourselves.

So, I have nothing to offer you better and more beautiful than it was already offered to you. No instant healing, no instant receiving, no instant vengeance, no instant satisfaction for any need. Just plodding along the Path, in tired footsteps, slow going because of the weight of our burden.

The walk is long and slow also because we are not alone - many others walk along the same Path too, and some are lame, some are blind, some are just a child. If we go too fast we might miss a smile, a handshake, a kiss - from someone unlovely, probably unhealthy, surely ugly - someone from whom we hide our faces, and consider forsaken by life - perhaps a man of sorrows, and aquainted with grief .

What, my love, can I offer you then? Not brilliant minds, beautiful bodies, sensual flesh, enthralling conversation, enticing ideas. What can I offer you then?

I’ve nothing left but words - and they are not mine. Some are written in the Book, some in books written with tears. Well... it seems that all the ink I ever use is made of tears anyway.

It seems like tears are the ink the Infinite has used to write Eternity into our hearts.

But you don’t want tears, my love. You want laughter and beauty and enticing words that enthrall the mind and fill the heart with hope.

But the only hope I see is through a Gate of Splendor - but it's so tight you have to squeeze through, and leave it all behind.

The only beauty I know is the one that shines after a terrible storm blows everything away, destroying it all in its path - leaving only a rainbow and the freshness of a new beginning.

The only laughter I know is the last minute of the long night vigil - like the one I relearned as two young men came to me out of the past.

Does any of this make a good gift to counterbalance a life of carefree fellowship with your peers? A carefree life, no strings attached, no encumbering unloved ones to drag around? No responsibilities but to keep on going ahead?

But... keep going for what?

See? I can’t offer you anything. How about “Come and suffer trials with me”? Or maybe, “Come and experience strife, misunderstanding, arguments and pain”?

That’s the world I live in - a world full of strife, misunderstanding, arguments and pain. No plastic peace in here. Just plain daily rubbing against each other, no masks attached.

But... if you want to leave it all behind for love - even peace, beauty and laughter - come with me, my son. We can relearn together what they took away from us - how to love without restriction and without a price. How to take care of each other in spite of annoyance. How to withstand aggravation, differences, pettiness and all that goes with loving the imperfect beings we are - just because we are a family. Together not by our choice - but by a hand higher than ours.

After all of this, my son, peace, hope, beauty, laughter will seem amazingly unimportant. You’ll be so busy learning to love - withstanding the unlovely - that you’ll forget all about yourself and your needs and wants.

And suddenly you’ll find yourself right where you wanted to be all the time - not maybe in a certain place, or with certain people - but right in the center of your own true Will.

Isn’t this what you wanted all the time? To be in the center of your own true will, and in unison with the universal Song?

So that’s all I have to offer you today. That’s my prayer for you - that you learn to love, and to give your life not to hypothetical “others”, but to real, down-to-earth “others” - the ones you have in your hand to love. Not “there”, but here. Not “tomorrow”, but today.

Don’t ever flee from love, my son. You will be fleeing from your true self. That's the only love there is.

And after all of this, you'll have the desires of your heart. Believe me, you will!

I love you, my son. You are one of the most precious, beautiful and annoying gifts I've ever received.


Dalva Agne Lynch
Enviado por Dalva Agne Lynch em 09/05/2008
Alterado em 16/02/2012

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